miércoles, 29 de septiembre de 2010

O inferno pode ser aqui

POR JEAN WYLLYS

Há dois dias eu participei de um debate no Colégio Dom Pedro II (Rio de Janeiro) com um pastor evangélico neopentecostal candidato a deputado federal. Em pauta, a importância da educação sexual leiga, livre de paixões religiosas, em escolas públicas de ensinos fundamental e médio. As falas do tal pastor – todas contrárias a qualquer programa de educação sexual leiga em escolas públicas e especialmente intolerantes em relação à homossexualidade - bem como a acrítica recepção das mesmas pelos alunos evangélicos presentes (que, embora fossem minoria, faziam-se notar pelo fervor com que recebiam as palavras do pastor) me levaram à seguinte conclusão: eis uma situação paradoxal: por um lado, a comunidade dos crentes cresce na mesma proporção em que se afasta ou se esquece da política (para só se “lembrar” dela na hora do voto), ou seja, é cada vez maior o número de pessoas que trocam o interesse e/ou a luta por justiça e felicidade aqui na cidade dos homens pela crença e interesse apenas na justiça divina e numa vida boa na cidade de Deus, no “paraíso” depois do “juízo final”; por outro lado (e eis o paradoxo!), crescem as bancadas de políticos cristãos evangélicos nas câmaras de vereadores, assembléias legislativas e no Congresso Nacional: o rebanho de crentes deve se esquecer da política (e só se “lembrar” dela de eleição em eleição) para que seus pastores consigam colonizar o Poder Legislativo e, assim, atuem contra os princípios democráticos e as liberdades constitucionais e em favor da aplicação de preceitos cristão numa sociedade tão diversa étnica e religiosamente quanto a nossa. Lembrem-se, por exemplo, dos esforços dos evangélicos Rosinha Matheus e Garotinho em liquidar os princípios republicanos e o laicismo que, até eles se tornarem governadores do Rio de Janeiro, norteavam a educação pública fluminense, impondo, à grade escolar, o ensino do “criacionismo”, cujo objetivo é descartar a tese da evolução das espécies de Darwin, consenso na comunidade científica, em nome do mito judaico-cristão de que Deus criou a terra e todo o resto há pouco mais de seis mil anos. Durante o debate com o pastor evangélico e candidato a deputado federal a que me referi, o mesmo fez tabua rasa de todo conhecimento que a ciência moderna vem nos legando ao longo de sua existência para reafirmar, como verdades absolutas, os mitos bíblicos, que, à luz da razão ou até mesmo da sensatez de cristão instruído, não devem jamais ser tomados ao pé da letra, apenas interpretados, já que não passam de figuras literárias que encerram alguma “filosofia de vida” em suas entrelinhas. A conclusão a que cheguei não é estapafúrdia. Para reconhecer que estou certo, basta recuperar os resultados das últimas eleições: foram os candidatos extremistas religiosos, fundamentalistas, populistas e quase sempre ligados às igrejas neopentecostais que se multiplicam em “franquias” pelas periferias e áreas pobres das cidades, como se fossem McDonald’s, que conseguiram se eleger, derrotando candidatos honestos comprometidos com valores humanistas e envolvidos com os movimentos negro, feminista, LGBT e ambiental. O compromisso de não contemplar nenhuma reivindicação dos movimentos feministas e LGBT, firmado pelos candidatos à presidência José Serra, Marina Silva e Dilma Rousseff com líderes evangélicos brasileiros em troca de seus apoios, é outra prova de que minha conclusão é acertada. Se as bancadas de evangélicos fundamentalistas crescerem após as eleições de outubro próximo, temo pelo destino de nossa jovem democracia. Não se trata de antipatia em relação a crentes (eu tenho bons amigos evangélicos!) nem de negar, à comunidade dos crentes, o direito à representação. Se os representantes evangélicos reconhecessem que um Estado Democrático de Direitos deve estar livre de quaisquer paixões religiosas e atuassem em defesa das liberdades constitucionais e dos direitos humanos, reservando, para a esfera privada, as questões de fé e crença religiosa (uns poucos até agem dessa forma, é preciso que se reconheça isto!) , o crescimento das bancadas evangélicas não seriam um problema para a democracia e para suas minorias; estaríamos num “paraíso”. Porém, a história vem mostrando que não é assim que eles, os representantes da comunidade de crentes, agem politicamente. Logo, só podemos esperar, deles, uma condenação dos “infiéis” a um “inferno” em terra.

O inferno são os outros

POR JEAN WYLLYS

A coluna da semana passada - intitulada “O inferno pode ser aqui” – causou polêmica entre meus leitores. Digo isto a partir dos emails pró (a maioria deles) e contra que recebi ao longo da semana. O senso comum de que política, futebol e religião são assuntos que não devem ser discutidos porque levam fatalmente a controvérsias e polêmicas quando não a violências verbais e físicas, este senso comum é o mais contrariado, pois o que mais discutimos é justamente futebol, religião e política. E eu, de minha parte, gosto de discutir estes assuntos. Por isso é que, entre os emails contra a coluna da semana passada que recebi, selecionei, para responder, aquele mais emblemático porque sintetiza, num texto razoavelmente escrito dentro das normas da língua, os argumentos de todos os outros e porque foi escrito por um professor dos ensinos fundamental e médio que eu chamarei de M para preservar sua identidade. Em seu email, M diz: “Quando vocês LGBT tentam nos rotular de fundamentalista é porque vocês ignoram que para nós a Bíblia não é um mito, para nós as escrituras é a palavra de Deus. Não digo isto para te afrontar, mas é assim que é e sempre será. (...) por isso somos contra o aborto, adoção de crianças por homossexuais e casamento homossexual, afinal nenhum ser humano veio de uma relação de pessoas do mesmo sexo, e isso não é questão de religião, é a natureza estruturada perfeitamente em seu lugar”. M não pára por aí e vai além em seus “argumentos”: “temos também esse direito [de expressão] e faremos uso dele para dizer à igreja cristã, não votem em quem defende causas antibíblica. (...). Acredito que se houvesse um plebicito [sic], e espero que tenha, a nação brasileira diria não! a essas serie [de] questões que estamos pautando. (...).Vamos confronta [sic] tudo que é forjado e deturpado na desigualdade ou privilégios de uns para com os outros, e para isso dizemos hoje para igreja evangélica no Brasil, Não votem em candidatos que defendem causas do LGBT”. Bom, eis minha resposta para M:
Não pode haver diálogo entre nós porque eu falo como um homem de ciência e não como um religioso. Não me pauto em dogmas nem em mitos tomados como verdades absolutas (mitos são mitos e apenas isto; e quem os toma como verdades absolutas são fundamentalistas, sim, pois, estão tomando os fundamentos da religião – e toda e qualquer religião é fundamentada em mitos - como verdades incontestáveis; há fundamentalistas cristãos evangélicos e católicos, mulçumanos, judeus e até mesmo nas religiões de matriz africana), pauto-me pelo conhecimento produzido pela humanidade que nos legou, entre tantas coisas, a roupa que você veste; a técnica de produção do papel com o qual é fabricado a bíblia que você lê (ou você acha que ela caiu do céu?) sem falar da própria técnica de impressão; o computador a partir do qual você me mandou seu email; e as técnicas de reprodução humana que libertaram o sexo de sua função reprodutiva, permitindo que uma mulher ou um homem estéril possa ter filhos fora das “leis” da natureza (será que cada vez que você faz sexo é para ter um filho ou você admite que faz sexo também porque gosta de gozar e porque gozar é prazeroso e nos faz pessoas saudáveis?). Ou seja, seu argumento não passa de uma falácia ou de fruto de uma ignorância expressa. Se você quiser levá-lo adiante com honestidade; se quiser que eu o leve em conta e lhe considere uma pessoa honesta consigo e com os outros, sugiro que abra mão de tudo que é conquista cultural e vá viver como um animal de acordo com as “leis” da natureza; só assim, você estará sendo honesto em usar o argumento de que “nenhum ser humano nasceu da relação entre dois homens ou duas mulheres”. Do contrário, admita sua enorme ignorância – eu temo pelo destino da mentalidade de seus alunos – e sua homofobia expressas. Ou admita sua má fé e a intenção de manipular politicamente o conteúdo bíblico, que, volto a dizer, não traz qualquer referência à homossexualidade e deve ser interpretado, pois, se o tomássemos ao pé da letra, deveríamos praticar, em pleno século 21, algo abominável e desumano como a escravidão de pessoas, pois, é o que recomendam trechos dos livros Levítico (25, 44-46) e Êxodo (21, 7-11) e das cartas de Paulo aos Efésios (6, 5-7) e a Timóteo (I, 6, 1-4). Tenho amigos cristãos evangélicos que são inteligentes e compreendem que a religiosidade deve dar um sentido às grandes questões da existência, jamais ser manipulada para amedrontar pobres ignorantes e, assim, arrancar, deles, seu pouco dinheiro. Aliás, por falar em dinheiro, não nos esqueçamos de que Jesus – grande sábio que, se vivo estivesse, morreria de vergonha da hipocrisia dos que falam em seu nome hoje em dia – açoitou os vendilhões do templo! O que não falta hoje em dia são templos com seus vendilhões, que, embora sirvam principalmente ao deus-dinheiro, acreditam que o inferno são os outros.

miércoles, 8 de septiembre de 2010

Casamento civil é um direito

Carlos Tufvesson
Estilista

[O Dia, 08/09/2010] Rio – Em 15 de julho, o Senado da Argentina aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O que isso significa? Que esses cidadãos têm, a partir daquela data, os mesmos direitos que qualquer cidadão argentino, direitos e deveres que um deputado, quando faz uma lei, entende que dois cidadãos que dividam sua vida em comum possuem — de acordo com uma constituição que diz que a lei é igual para todos.

Isso não mudará as leis da Igreja Católica ou evangélica ou muçulmana ou quiçá dos terreiros de umbanda daquele país. Nenhuma religião será obrigada a casar ninguém, pois a lei se refere ao Código Civil Argentino e, como disse no artigo publicado na semana passada, cada religião possui suas próprias leis e regras e ninguém mudá-las.

Significa apenas, e nada além disso, que direitos tais como declarar imposto de renda em comum, direitos a herança, partilha de bens, somar empréstimo para aquisição de casa própria, entre outros 78 que são direitos constitucionais de qualquer cidadão brasileiro, nós, cidadãos homossexuais deste País, teríamos também, corrigindo um flagrante descumprimento constitucional.

Por isso, tomo por ignorância e manipulação de massas essa caça às bruxas que existe contra essa lei por parte de religiosos, já que ela nada tem a ver com religião. Isso aconteceu da mesma maneira com a lei do divórcio, igualmente combatida na época de sua aprovação e discussão em sociedade.

Discursos clamorosos como o da “extinção da família” e “lei do Anti-Cristo” eram ouvidos tal e qual. O que vemos hoje? Vale na justiça dos homens, mas as igrejas continuam não aceitando. E assim deve ser.

Estado e religião quando se misturam não governam para todos os cidadãos. Isso não esquecendo que, desde as cruzadas, é a maior causa das guerras em nosso planeta.

lunes, 23 de agosto de 2010

DILMA divulga manifesto para acalmar povo de Deus

Petista divulga manifesto para acalmar povo de Deus

(23/8/2010)

Vera Rosa / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

Em carta, ela defende a família e promete não espichar a polêmica sobre aborto e união civil entre homossexuais

Vedete da campanha do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, a Carta ao Povo Brasileiro, feita sob medida para acalmar o mercado, ficou para trás. De olho no voto de católicos e evangélicos, a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, escreveu agora um manifesto intitulado Carta ao Povo de Deus, no qual defende a família e promete não espichar a polêmica sobre aborto e união civil entre homossexuais.

Cabe ao Congresso Nacional a função básica de encontrar o ponto de equilíbrio nas posições que envolvam valores éticos e fundamentais, muitas vezes contraditórios, como aborto, formação familiar, uniões estáveis e outros temas relevantes, tanto para as minorias como para toda sociedade brasileira, diz a carta assinada por Dilma.

No último parágrafo do manifesto, que será distribuído em seu comitê, a petista pede oração e voto para ter a oportunidade de continuar o projeto de Lula. Em tom pontuado por expressões de fé e esperança, Dilma diz que programas como o Bolsa-Família e o Minha Casa Minha Vida resgatam valores da cidadania e a semente do Evangelho.

Disposta a cativar todas as denominações cristãs, ela observa que a miséria e as distorções sociais têm o dedo imperfeito do homem, e não o desígnio de um Deus perfeito.

Na quinta, Dilma conversou com o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, d. Geraldo Lyrio Rocha, em Brasília. Estava acompanhada por Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula e ex-seminarista.

A visita de Dilma à sede da CNBB ocorreu no rastro da polêmica envolvendo o bispo de Guarulhos (SP), d. Luiz Gonzaga Bergonzini. Em artigo intitulado Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus – postado no mês passado no site da CNBB -, o religioso defendeu o boicote à candidatura de Dilma por considerar que a petista defende o aborto, embora ela não tenha pregado sua legalização.

Coordenado pelo pastor e deputado Manoel Ferreira (PR-RJ), o comitê evangélico pró-Dilma também produziu uma cartilha contendo 13 motivos para o cristão votar nela. Na lista consta que a candidata faz parte de uma geração que lutou pelo ideal da liberdade democrática, tanto quanto pela liberdade cultural e religiosa. Na tentativa de combater a fama de durona que maltrata os subordinados, o texto diz ainda que Dilma é humilde e conhece o sofrimento, a dor e a necessidade do ser humano. / V.R.

FONTE: CCR (Comissão de Cidadania e Reprodução) http://www.ccr.org.br/a_noticias_detalhes.asp?cod_noticias=11180

http://jandirainbow.wordpress.com/2010/08/23/serra-marina-e-plinio-na-tv-cancao-nova-2182010/

(21/8/2010)
O Dia Online

Rio – Os candidatos à Presidência José Serra (PSDB), Marina Silva (PV) e Plínio Arruda Sampaio (PSOL) participam amanhã, às 22h, de debate promovido pela TV fechada Canção Nova, com retransmissão pela rede de rádio e TV Aparecida. Dilma Rousseff (PT) foi convidada, mas não vai participar.

No mês passado, Dilma se envolveu em polêmica depois que o bispo de Guarulhos, dom Luiz Gonzaga Bergonzini, pregou o boicote dos católicos à candidatura petista, sob o argumento de que a ex-ministra defende a descriminalização do aborto. A assessoria de Dilma não informou se é este o motivo de sua ausência.

Temas como aborto, uso de células-tronco embrionárias e uso de símbolos religiosos em locais públicos estão na pauta do debate, previsto para durar duas horas.

A emissora pertence à comunidade católica Canção Nova, que segue a linha Renovação Carismática. No Rio, o canal pode ser sintonizado por antena parabólica e pelas TVs por assinatura TVA (canal 166) e Sky (canal 24). O debate será no auditório da Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, e terá como mediador o padre Antônio Cesar Moreira Miguel, diretor da Rede Aparecida.

FONTE: CCR (Comissão de Cidadania e Reprodução)

http://www.ccr.org.br/a_noticias_detalhes.asp?cod_noticias=11187

Terreiros de candomblé da BA pedem que filhos-de-santo se declarem ao Censo 2010

23/08/2010 - 07h05

Especial para o UOL Notícias
Em Salvador

A pouco mais de dois meses para o encerramento do Censo 2010, os terreiros de candomblé e umbanda da Bahia intensificaram uma campanha para que seus filhos-de-santo declarem aos pesquisadores serem adeptos dos cultos.

Segundo dados do último censo geral do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), realizado em 2000, apenas 0,49% da população de Salvador (aproximadamente 9.000 pessoas, à época) declarou pertencer a uma religião de matriz africana. Esse número é, proporcionalmente, bem menor que em capitais como Porto Alegre (2,5%) e Rio de Janeiro (1,2%).

"Levando-se em consideração que Salvador é considerada a cidade com o maior contingente negro fora da África, os dados confirmam que o sincretismo religioso no Estado acabou favorecendo, historicamente, religiões majoritárias, como a católica", observou Joílson Rodrigues, coordenador de informação do IBGE na Bahia.

A campanha que pretende desvendar o real número de adeptos do candomblé e da umbanda na Bahia é feita pela internet, principalmente pelas redes sociais, além de mensagens por telefone, mala direta, contatos pessoais e distribuição de panfletos.

"Faço questão de conversar pessoalmente com meus filhos-de-santo, pedindo que eles não tenham vergonha da nossa indumentária, das nossas músicas, das nossas danças, ao contrário, que sintam orgulho de nossa cultura. Além disso, estou usando a internet e outros meios digitais para divulgar a campanha fora da Bahia", afirmou o babalorixá Sivanilton Encarnação da Mata, mais conhecido como Babá Pecê de Oxumarê. Líder do terreiro Ilê Axé Oxumarê, fundado no século 19 e um dos mais tradicionais do Brasil, o babalorixá é o coordenador da campanha na Bahia.

No ano passado, o Coletivo de Entidades Negras (CEN) lançou a campanha "Quem é de axé diz que é" para estimular os filhos e filhas-de-santo a divulgarem que são adeptos dessas religiões. Com o início do Censo 2010, os terreiros da Bahia resolveram ampliar a iniciativa. O movimento popular conta com o apoio da Federal Nacional do Culto Afro-Brasileiro e outras associações ligadas à causa da intolerância religiosa.

"Queremos conscientizar o povo-de-santo sobre a importância de assumir a sua identidade religiosa com orgulho e, assim, chamar atenção da sociedade para a necessidade de criação de políticas públicas para nós, adeptos de religiões afro-brasileiras", disse Marcos Rezende, coordenador-geral do CEN.

Um levantamento feito entre 2006 e 2007, pelas Secretarias Municipais de Reparação (Semur) e da Habitação (SMH), em parceria com o Ceao (Centro de Estudos Afro-Orientais, órgão da Universidade Federal da Bahia), revelou que existem 1.165 terreiros na capital baiana. Contudo, de acordo com estimativas do antropólogo Jocélio Teles, diretor do Ceao e coordenador da pesquisa, esse número é ainda maior. Na Bahia, a Federação do Culto Afro estima a existência de cerca de 4.000 terreiros.

"A campanha dos terreiros é importante porque, depois do Censo, teremos informações mais precisas para caracterizar o povo brasileiro", acrescentou Joílson Rodrigues.

jueves, 15 de julio de 2010

Aprovado o casamento entre pessoas do mesmo sexo na Argentina : um exemplo de cidadania plena

Toni Reis*

Depois de 14 horas de debate, o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado na Argentina na madrugada do dia 15 de julho de 2010, com 33 votos a favor, 27 votos contra e três abstenções. Uma mudança tão pequena de redação, com tanto significado para a igualdade de direitos. A reforma substitui as palavras “homem e mulher” da versão atual da legislação por “cônjuges”, permitindo assim que casais do mesmo sexo também possam contrair o matrimônio.

Congratulações à querida aliada Cristina Kirchner e seu governo, à câmara dos deputados, ao senado, às pessoas militantes LGBT, e a todo o povo argentino. Esta aprovação é um gesto de civilidade.

A Argentina agora, sem dúvidas, torna-se um país com mais igualdade e inclusão. Todos e todas são vitoriosos pela decisão histórica. Afinal, universalizou-se este direito.

Vocês, hermanos e hermanas, devem se orgulhar do feito. Vocês são o primeiro país a reconhecer a igualdade dos direitos humanos de pessoas LGBT em nossa região, onde existe ainda muito machismo e homofobia. E são o décimo no mundo a avançar nessa garantia. Agora vocês estão ao lado da África do Sul, Bélgica, Canadá, Espanha, Holanda, Islândia, Noruega, Portugal, Suécia e Suíça. Orgulhem-se!


Foi o maior debate na sociedade argentina desde a aprovação da lei do divórcio em 1987.

Do lado dos argumentos contra – muitos deles irracionais, ilógicos, retrógrados, conservadores e fundamentalistas – disseram que somos inférteis, filhos do diabo, desviados, antinaturais, pervertidos, abomináveis, projeto do demônio, que queríamos destruir a família tradicional, e implantar a filosofia de Sodoma e Gomorra; seria o apocalipse, um “risco para o futuro da pátria”, iríamos acabar com a perpetuação da espécie... Como bem resumiu a presidente Cristina Kirchner, "o discurso da igreja recorda os tempos da inquisição e das cruzadas".

Também, não vamos tripudiar os vencidos. Afinal, qual deles ainda ousam falar que a terra é quadrada ou que os negros não têm alma? Eles também vão mudar lentamente, daqui uns 500 anos talvez.

Venceu o discurso racional, lógico e sólido, a honestidade intelectual e liberdade de consciência, provando que esta lei é mais um instrumento de luta contra a discriminação. Venceu o estado laico e a secularidade do código civil.

Um fato importante é que apesar de ser uma iniciativa de duas parlamentares da esquerda, Silvia Augsburger e Vilma Ibarra, parlamentares de todas as matizes ideológicas e partidárias votaram e foram a favor do projeto.

Para ficar na história, seguem alguns dos argumentos a favor apresentados por parlamentares da situação e da oposição:

Ao apoiar a mudança, o líder do bloco da oposição radical, Gerardo Morales, afirmou que "chegou a hora de sancionar normas que se adaptem a novos modelos de vínculos familiares" e relembrou a existência de "modelos de famílias diferentes (aos) que tínhamos há 30 ou 40 anos". Segundo ele, apesar das polêmicas e disputas, "ganhou o debate cultural" no país, diante da participação da sociedade na discussão.

O senador socialista Rubén Giustiniani, que votou a favor da lei, disse que o perfil da sociedade argentina mudou e por isso era o momento da aprovação do texto. Segundo ele, dados oficiais indicam que 59% das famílias argentinas já não atendem ao perfil tradicional de pai, mãe e filhos. Mas de mães solteiras, casais separados e casais homossexuais.

"Hoje é um dia histórico. Pela primeira vez na Argentina se legisla para as minorias", afirmou o senador Miguel Pichetto, líder do bloco do governo, acrescentando que "aqui não haverá mais casamentos do mesmo sexo só porque aprovamos esta lei. O objetivo desta norma é eliminar a discriminação".

A senadora Victoria Blanca Osuna defendeu: "as questões que estão em jogo nesse projeto não são religiosas ou morais. Nós estamos perguntando a nós mesmos a responsabilidade da democracia com as minorias discriminadas".

Nas palavras do senador Eduardo Torres, "a única diferença entre gays e heterossexuais é que eles têm menos direitos na sociedade argentina. Nós não podemos aceitar a discriminação que ocorre em várias partes da sociedade.”

Já o senador Luis Juez, da opositora Frente Cívica, optou por apoiar o governo porque, mesmo cristão, entende que "nem na Bíblia há um parágrafo onde Cristo fosse contra os homossexuais". Ele lembrou que o código civil é "uma instituição laica, em um país laico. O Estado argentino passou a reconhecer a mudança social, e a projetou juridicamente.”

A senadora Maria Eugenia Estenssoro, da opositora Coalición Cívica, argumentou que o projeto é "necessário" para os casais do mesmo sexo. "Esta lei permitirá que os homossexuais possam assumir publicamente suas relações."

Com certeza, a comunidade LGBT brasileira está com “uma certa inveja arco-íris”. Aqui estamos sendo menos ousados, estamos pedindo somente a união estável, e mesmo assim estamos tendo a maior dificuldade com fundamentalistas religiosos. Vamos analisar e discutir esta nova conjuntura.

Não vamos desistir. Vamos nos inspirar na Argentina. Vocês venceram uma etapa importantíssima, agora sejam felizes e continuem lutando para mudar a cultura. A mudança das leis não quer dizer a mudança de cultura.

Para quem não foi escravo, a libertação da escravatura foi um fato histórico relevante. Mas para quem era escravo, foi a melhor coisa que aconteceu. Da mesma forma para nós LGBT, a aprovação do Casamento Civil é a abolição de uma das tantas discriminações imposta à nossa comunidade.

No Brasil pelo menos 78 direitos civis expressamente garantidos aos heterossexuais na legislação brasileira são negados aos homossexuais. Para isto, há uma possibilidade que a união civil poderá chegar aqui também, a partir de uma decisão do Supremo Tribunal Federal, que deve examinar a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 132-RJ e a Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4277, nas quais se argumenta que negar o direito de união às pessoas do mesmo sexo viola os princípios constitucionais de igualdade. Nisto, já temos apoio do Presidente Lula e da Advocacia Geral da União.

É um absurdo que a essa altura da história nossa sociedade ainda esteja discutindo se deve ou não universalizar os direitos. Mas, apesar do poder de grupos religiosos fundamentalistas contrários à mudança, mais cedo ou mais tarde, a lei será aprovada no Brasil também, garantindo dignidade e combatendo a discriminação.

Como o Presidente Lula falou na abertura da I Conferência Nacional LGBT, “Ninguém pergunta a orientação sexual de vocês quando vão pagar Imposto de Renda, ninguém pergunta quando vai pagar qualquer tributo neste País. Por que discriminar na hora em que vocês, livremente, escolhem o que querem fazer com o seu corpo?”

A querida aliada presidente Cristina Kirchner resumiu tudo, estamos felizes e satisfeitos com a vitória.

Esta vitória mudou o mapa da região, vejam em www.ilga.org .

Amores iguais, direitos iguais, nem menos, nem mais. Que viva a cidadania plena, sem discriminação de qualquer natureza. Que viva a Argentina, e que continue dando exemplo para o mundo de como devem ser tratadas as pessoas LGBT.



* Toni Reis



- convive com seu marido há 20 anos

- especialista em sexualidade humana

- mestre em ética e sexualidade

- doutorando em educação

- presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais

- diretor da Associação para a Saúde Integral e Cidadania na América Latina e no Caribe